3 de dezembro de 2016

Diva (de José de Alencar)

"Eu tinha parado na porta, e admirava: afinal adiantei-me para cumprimentá-la. Ouvindo o rumor dos meus passos, ela voltou-se. (...) As cores fugiram-lhe. Ela vestiu-se como de uma túnica lívida e glacial (...) Fitou-me com um olhar augusto e desapareceu." p. 19 - (Dr. Amaral)

Aos quatorze anos, Emília é uma moça bastante tímida, com poucos atributos físicos e desengonçada; porém assídua nos salões, pois seu pai é rico. Sua reserva para com os conhecidos, não passa despercebido aos olhos do Dr. Amaral. Ao menor cumprimento, se esquiva, e parece amedrontada com a côrte; mas, quando à vontade, a jovem Mila é doce e sorridente.

Eis que uma tarde, a jovem fica gravemente doente e o Dr. Amaral é incumbido de atendê-la; todavia, durante o exame, o médico ausculta-lhe o peito, o que desperta em sua paciente um acesso de fúria. A partir de então, o Dr. Amaral passa a atendê-la somente enquanto dorme; e se empenha ao máximo para curá-la. Assim, o jovem recém-formado ganha a gratidão da família Duarte, que insiste em pagar-lhe os serviços prestados; ao que ele recusa.

Dois anos depois, o Dr. Amaral está de volta ao Rio, após uma temporada na Europa. Ao saber da notícia, os Duarte resolvem inclui-lo no círculo de amigos; pois se sentem em dívida em relação à Mila. É nesse momento que o médico se surpreende ao avistar sua antiga paciente. Ela agora está exuberante; até mais comunicativa e coquete; apesar de continuar seletiva com os alvos de sua atenção.

Acreditando que o episódio passado está superado, o Dr. Amaral tenta uma aproximação cordial; porém fica consternado com a recepção fria e ares de desdém da moça. Ele ainda insiste em conversar, fazer um gracejo; mas ela parece odiá-lo, a ponto se divertir com sua humilhação pública.

Diva é um romancete intrigante e, no meu ponto de vista, o mais complexo de José de Alencar. Mila é um enigma; e por que não uma "diva"? Seu estado de espírito passa por várias transformações que, se eu contar, perde a graça; mas a partir do momento em que desabrocha, fica ciente da bela jovem que se tornara; de modo a ganhar a admiração dos homens e a inveja das mulheres.

Emília é um ser livre, que almeja amar e ser amada com profundidade; ao invés das paixões corriqueiras e calculadas das noites de baile; e embora caprichosa, possui uma sedução natural; uma ingenuidade que desconhece os limites. Enquanto o flerte lhe parece aprazível e inconsequente, ela escarnece dos admiradores; mas quando deixa de ser abstrato para se tornar real, "fecha-se em copas" e desaparece. E ai de quem ousar pegar-lhe a mão!

Mila teve uma educação rigorosa, e o resultado de tanto zelo foi um efeito rebote. A jovem assume um excesso de pudor que não é normal; e o gesto clínico do Dr. Amaral é como um gatilho para as paixões e desejos reprimidos. Sem intenção de se apaixonar pelo médico, ela oculta o sentimento (e o substitui pelo ódio e fingida indiferença), considerando o incidente como uma "afronta" ao seu recato.

Fiquei impressionada com o livro, que consegue esmiuçar tão bem a personalidade multifacetada de Emília. Eu já tinha lido essa obra há dez anos, porém o tempo nos dá outra percepção. Hoje, não considero Diva apenas um mero romance sobre uma jovem confusa que idealiza o amor e teme a desilusão; é muito mais que isso. É uma verdadeira batalha emocional sobre os mistérios da alma feminina; engenhosamente escrito; e dotado de fortes críticas às relações superficiais.

Em suma, "Senhora" ainda é meu romance favorito do autor; mas a história de Mila também me arrebatou de todas as formas; pois a personagem era irônica, inteligente; e em seu recato, fazia-se ousada; em sua fragilidade, mostrava-se forte; em seus ideais, mostrava-se firme; e com todo esse paradoxo ela se distinguia e fazia-se diva! Só posso encerrar a resenha pedindo que leiam. <3

28 de novembro de 2016

Pela luz dos olhos seus (de Janine Boissard)

"Pão e música: os dois alimentos indispensáveis à vida." p. 29 - (Cláudio Roman)

Laura Vincent tinha uma vida sossegada na Normandia e possivelmente teria crescido sem muitas ambições, se as pessoas não a comparassem constantemente com sua irmã mais velha, a beldade.
Morando agora em Paris, trabalha como assessora de imprensa de novos talentos da música, até que é requisitada para cuidar da agenda do grande tenor, Claudio Roman.

Claudio é deficiente visual e tem fama de ser um homem arrogante, indelicado e conquistador. Laura terá de acompanhá-lo nas viagens e guiá-lo sempre que necessário; mas ela está insegura quanto a isso. Ela mal conhece o trabalho dele.

Porém, quando finalmente são apresentados, Laura percebe que Claudio, além de bonito e charmoso, é um homem consumido pelo rancor e que luta contra os fantasmas do passado. Laura gostaria de descobrir mais sobre ele, de passar mais tempo na sua companhia. 

Apesar de algumas pessoas alertá-la de que o estado de melancolia também faz parte da sedução, Laura se sente mais atraída por Claudio. Mais que isso, ela o ama. Ela só não sabe como ir adiante, sem se tornar sua próxima conquista.

Eu tinha muita vontade de ler esse livro, desde que vi a capa. Eu amo histórias que tem música como pano de fundo e essa é mais incomum, porque é a música clássica. O cenário é o teatro, com todo o glamour dos concertos, da ópera e das noites de gala. Boissard descreve esse universo, citando artistas e óperas famosas; e fornecendo trechos traduzidos de árias. Mas, apesar da ambientação, o desenvolvimento deixa um pouco a desejar. 

Laura é uma personagem lamuriosa, de autoestima muito baixa, que com frequência se queixa da aparência e da estatura, e parece duvidar de que algum homem possa se apaixonar por ela. 

Ela também se envolve muito rápido com os problemas de Claudio, algo difícil de acontecer na vida real, ainda mais com a reputação que ele tinha; mas interpretei isso como carência afetiva. Às vezes eu até esquecia que Laura tinha apenas 26 anos, porque seu comportamento exalava uma maturidade bem acima da média, e não digo isso de maneira animadora. Faltava-lhe vivacidade.

Claudio também não era diferente; mas foi o personagem mais mal construído. Sofria variações de humor e era depressivo, algo que foi pouco fundamentado; porque só há fragmentos do que aconteceu quando perdera a visão; não tem profundidade. Tanto que não consegui me envolver com o drama do personagem, e um livro como esse precisava emocionar. Tem uma história linda!

Apesar de tudo, recomendo Pela luz dos olhos seus, porque de alguma forma o livro fisga o leitor. Não sei se por causa da história singela ou da ambientação; mas conquista a gente. Sem contar que a escrita da Boissard é leve e graciosa, de modo que nem sentimos o tempo passar.